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Sonho de uma noite de verão

Publicado por:
a Fala
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Eu fiz uma lista, uma vez. “30 coisas para fazer antes dos 30”. Eram coisas que eu queria provar, experimentar, ousar. Ia desde aprender inglês até fazer uma loucura. E a ideia era cumprir a lista. Bom. Num determinado momento da minha vida fiz uma viagem, sozinha. (Esse era outro item da lista que eu gostei tanto de fazer que repeti algumas vezes).

Nessa viagem, uma praia paradisíaca, conheci uma pessoa e me encantei. Um argentino lindo, sedutor. Muito alto, forte, divertido, lindo mesmo. Passamos juntos um dia e uma noite, e não mais do que isso. Ele tinha que ir embora para o seu país, eu ainda ficaria lá por alguns dias. Trocamos contatos, continuamos conversando e por fim veio a ideia: ir para a Argentina encontrar com ele. E foi aí que começou o projeto “fazer uma loucura”. Estava muito animada.

Conversamos e eu resolvi passar uma semana lá, no carnaval. Aqui já poderia ser considerado a loucura né? Sair do Brasil para passar o carnaval na Argentina. Mas foi isso que garantiu que as passagens de última hora não saíssem tão caras. Então foi isso. Resolvi viajar para passar uma semana com um cara que conheci e com quem estive um dia e uma noite num sonho de verão. E depois voltar para casa, apenas. Sem vínculos, sem amarras, sem planos. Apenas ir.

A ideia era ir para o sul da Argentina, uma cidadezinha que eu nunca tinha ouvido falar, onde ele tinha família. Ele morava próximo à Buenos Aires, uma hora, aproximadamente. Eu topei, e fui. E ele me buscou no aeroporto, e partimos direto para a estrada. Eu estava tensa, com um frio na barriga, mas quando o vi lá, achei que seria tudo perfeito. Fiquei muito animada.

No caminho foi um pouco estranho. Pouco nos conhecíamos, e era uma viagem longa, quase o dia inteiro na estrada. Não tínhamos tanto assunto assim, mas tudo bem. O carro dele era muito velho e parou algumas vezes, o que gerou um pouco de tensão. Por um momento achei que não conseguiríamos chegar. Mas eu estava lá, e estava feliz por ter ido. Chegamos no final do dia, depois de viajar várias horas de avião, e mais várias horas de carro. Uma parte em silêncio, porque, enfim, a gente não tinha tanto assunto assim.

A cidade era muito pequena mesmo, fofa. Mas já era tarde, e estava muito frio. Fomos direto para o hotel. Era um hotel bem simples, mas ainda aconchegante. Piso de tábua corrida, parecia uma casa antiga, com muita história, que se tornou hospedagem. O quarto era bem pequeno, muito simples, mas nessa linha: madeira, decoração singela. Ainda estava tentando ver o que tinha no quarto e fazer essa imagem mental para memórias futuras quando ele me pegou. Me agarrou e me jogou na cama.

Eu pedi que esperasse. Eu queria tomar banho, queria que ele tomasse banho, queria um clima, eu queria outra coisa. Ele não me ouviu, ou fez que não. Fiquei aflita, mas ele me segurou. Ele era muito alto, e muito forte, eu mal conseguia me mexer. Sem que pudesse entender como ele abaixou a minha calça, a dele, e me penetrou. Assim, com força, ignorando o que eu dizia, ignorando meu esforço. Eu não conseguia entender ou acreditar no que estava acontecendo. Senti muita dor. Dor física, dor na alma. Ele fez o que queria, e virou de lado. Não queria nem saber.

De repente eu estava olhando para um teto que eu não sei descrever, tentando entender o que tinha se passado ali. Estava numa cidadezinha no sul da Argentina, à noite, estava frio, nesse hotel horrível, nesse quarto horrível com essa pessoa. Fui tomar banho em estado de choque. Ele saiu e foi encontrar um amigo, e me deixou lá. E eu, que estava atenta a tudo nessa viagem, fiquei dopada. Era o primeiro dia de uma viagem de uma semana.

Eu não consegui falar com ninguém, nem com nenhuma amiga, nem por telefone, nem nada. Nem comigo. Eu não acreditava no que aconteceu. E segui não acreditando, por alguns anos. Eu terminei a viagem, com ele. Cheguei a me divertir algumas vezes. Fingi que nada tinha acontecido.

Encontrei com ele pessoalmente em outra oportunidade. E vi que tive nojo, repulsa. E depois disso ainda levei mais um par de anos para entender, acreditar e assimilar que naquela noite, na minha viagem do sonho, eu fui estuprada pelo homem em quem confiei.

Hoje eu tenho pânico de ser segurada, contida ou presa. Demorei muito a entender porque. Tenho ódio por ser mais fraca que os homens, e ainda que treine muito, a grande maioria deles ainda terá mais força física do que eu. E estou começando a entender as razões de ter tantas dificuldades com homens, tanto medo deles. É mais difícil quando existem algumas marcas. Depois dessa viagem eu abandonei a minha lista. E a ideia de “fazer uma loucura” passou a ter outro significado.

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